A Europa sempre enfrentou múltiplas dificuldades, desde crises económicas e migratórias até períodos de instabilidade, guerras e epidemias. Ainda assim, há um padrão que se repete não apenas neste continente, mas em todo o mundo: a procura pela democracia.
Desde o seu surgimento na Grécia Antiga, a democracia foi, ao longo da história, mais um privilégio do que a norma. Mesmo quando existiu, foi muitas vezes limitada ou interrompida, quer pelo poder absoluto dos monarcas, quer pela imposição de regimes autoritários. Basta recordar a ascensão do comunismo, do nazismo ou do próprio Estado Novo para compreender que a democracia é uma conquista frágil e relativamente recente.
Tudo isto demonstra que a ideia de um povo representado e livre para escolher o seu próprio caminho não é nova, o que é verdadeiramente recente é o facto de esse modelo estar hoje mais amplamente difundido do que em qualquer outro momento da história.
Apesar disso, cresce o número de pessoas que defendem alternativas autoritárias, argumentando que a democracia é lenta, burocrática e orientada para políticas de curto prazo. Sustentam que uma população mais desinformada ou emocional pode eleger líderes incompetentes, seduzida por discursos com palavras mansas ou pela aparência de competência, muitas vezes assentes em soluções vazias para problemas complexos.
Então se a democracia tem tantos defeitos, porque é que continuamos numa democracia?
Sabendo que ela tem tantas imperfeições, porque é que nos países onde esta não existe, são onde a população tão fortemente a procura?
A resposta é simples. A democracia não é perfeita, nenhuma coisa terrena o é. A democracia é liberdade, é igualdade e é justiça. A democracia é imperfeita porque nos representa, porque nós, humanos, somos imperfeitos.
Numa democracia, os erros podem ser denunciados e corrigidos. Nas autocracias, os erros simplesmente não existem, porque quem os aponta é silenciado, preso ou eliminado. A ausência de crítica não é sinal de eficiência, mas de medo.
Tanto John Adams como Winston Churchill, depois das frases que foram referidas anteriormente, disseram: "Como a felicidade do povo é o único fim do governo, o consentimento do povo é a sua única fundação.” – John Adams, e “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais” – Winston Churchill.
Por isso, as críticas e os problemas que possui a democracia são, efetivamente, reais e com fundamentos, no entanto, considero que nós como europeus já estamos habituados a liberdade, a justiça e a igualdade e é por essa razão que nós, muitas vezes, nos esquecemos de como é viver sem estes valores.
Essa realidade torna-se particularmente evidente quando observamos países onde a democracia deixou de existir.
Eu nasci na Venezuela, já vivi numa autocracia. Vi, com os meus próprios olhos, pessoas cujo trabalho árduo era usado para financiar os luxos dos ditadores; cidadãos presos arbitrariamente e torturados apenas por discordarem do governo; homens e mulheres que se manifestavam pacificamente serem recebidos com disparos; e famílias obrigadas a partir com nada para um futuro incerto.
A minha experiência revela um padrão claro: quanto mais direitos e liberdades são retirados, mais o povo luta pela democracia. A democracia não é um luxo ocidental, é uma necessidade humana.
Porque a democracia é liberdade, e a liberdade é inerente a qualquer ser humano. Só um povo livre é capaz de exercer plenamente os seus direitos. A democracia é um acordo social, o único acordo onde dois partidos que se destruiriam entre si em vez disso, falam e discutem para o povo decidir. Essa é a chave: o povo decide o seu caminho, em vez de ser oprimido.
Por isso, não avancemos, ou melhor, não recuemos, para a opressão autoritária. Sigamos o caminho em que corrigimos as nossas falhas, investimos na educação sobre política e economia da população, promovendo decisões mais informadas. Só assim, fortalecendo o pensamento crítico coletivo, ou seja, o nosso próprio pensamento crítico, é que existe a possibilidade de construir democracias mais conscientes e justas.
Assim, defender a democracia não é ignorar os seus defeitos, mas reconhecer que, apesar deles, continua a ser o sistema que melhor protege a nossa dignidade. A vossa dignidade.
Matthew de Andrade
EB/PE de Santo António e Curral das Freiras (Funchal)








