sexta-feira, 14 de julho de 2017

Travessão | O azul é pesado?


 O azul é pesado?
Têm-se quietas, mortas, vazias e leves, canetas, sete delas para ser mais exato, numa gaveta fechada afastada da luz que brilha fora desse seu descanso eterno. E de que morreram elas?

Estas pobres criaturas passaram dez anos somados de vida a serem torturadas das formas mais medievais que se possa imaginar: todos os dias vinha o seu carrasco tirá-las do seu calabouço para esfregar-lhes a cabeça no chão áspero, sangrando-as pelo caminho para que se satisfizessem as vontades daquele seu carcereiro.

Por mais cruel que este tratamento pudesse parecer, era percebido que aquele carrasco, conhecido no seu mundo como ‘aluno’ e cujos senhores e nobres se viam intitulados de ‘pais’ e ‘professores’, não era uma má criatura. Na verdade, também ele era alvo de ataques e muito era violentada a sua cabeça à custa das campanhas a que era submetido por ordem de seus monarcas, que se viam também obrigados a atribuí-las porque assim lhes era forçado pelo sistema maior da vida. Deste modo, o ser – de outra forma livre – era obrigado a cruzar o seu fado com as benditas canetas.

A força vital do primeiro desses instrumentos, por mais estranho que pareça, durou quatro anos. Voltando a pensar melhor, essa longevidade é lógica, afinal o seu dono ainda era um novato na área, e preferia massacrar o parente distante de grafite dessa, que era roído e atirado de formas birrentas enquanto a caneta assistia horrorizada, de longe na sua masmorra, juntamente com os outros condenados. Nessa altura, ela só era agraciada pelo toque da luz quando eram entregues ao seu carrasco certas provas de desempenho, que eram a única coisa que fazia a jovem criatura tremer. Mas, durante esses quatro ciclos solares, o ‘aluno’ sofreu alterações profundas, que se reverteram a um caos que cairia sobre a vida das seis companheiras da nossa heroína.

Nos seis anos que se seguiram, a esperança média de vida destas caiu drasticamente para um período de em torno de 9 meses. O torturador aprendeu que a cor do líquido que lhes jazia no âmago era resultado da reflexão de radiação eletromagnética de comprimento de onda de à volta de 400nm, e que dessa mesma cor seria o líquido que escorrera do pescoço de Luís XVI quando este enfrentou a guilhotina. Neste mesmo comprimento, iriam ser rabiscadas dezenas de cadernos quadriculados de algarismos e fórmulas confecionadas por grandes carrascos de outrora.

No fim de tudo isto, na cabeça deste pobre coitado só restaria a memória distante de que, algures naqueles tempos, ele ouvira falar de algum Dom seno, cosseno ou tangente que invadira as terras do Mundo Novo enquanto lia um livro escrito por um zarolho português, e que em algum lugar existia um barco para o Inferno do qual ele não se lembra muito bem porque acabava de tentar aprender uma língua já estudada por três anos, cujo único fruto do aprendizado foi ter aprendido a mandar alguém a um sítio malcheiroso.

Será que tudo isto, toda esta cacofonia de conceitos e mistura violenta de conhecimentos, todos eles marcados na cor do céu, não contraria a leveza do elemento puro e inocente dessa tonalidade? Não é corrompido o seu propósito? Não o é o carrasco?

Dá-se aqui por encerrada a tortura.
Nélio Gonçalves

EBS Dr. Ângelo Augusto da Silva

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