quarta-feira, 26 de julho de 2017

Que nem filme.



Alberto acreditava que a sua vida seria presa ao campo. A mesma coisa. Todos os dias. Pois bem, como sempre, chegou o dia em que a exceção destruiu a regra.

Era talvez começo da primavera, talvez final do inverno, o certo é que as flores eclodiam amarelas. Alberto deambulava pelas pastagens (que nasciam verdes) quando, como por um milagre (que de milagre não teve nada!), encontrou um carro. Sim, um carro! Não havia muitos na altura. Estava atolado na lama. Tinha chovido, e a terra parecia um pântano. Sem crocodilos! E quem o empurrava? Uma mulherzinha – jovem (!) e não simplória! Ora, Alberto, cavalheiro como todos, deixou logo de fazer nada e correu…

«Entre e acelere!» Alberto arregaça as mangas, acopla as mãos à traseira do carro e empurra. Rrrrr…rrrr... As veias saltam-lhe dos braços … a cara fica vermelha! Vrom!... E o carro começa a marcha. Rápido. Não acaba aqui. O carro faz meia volta, volta pra trás, e, de janela baixa, volta a falar-lhe. «Joana.» «Alberto.» Ele olha-a: cabelo curto, loiro,…, batom vermelho. Não. Não tinha vestido branco esvoaçante que nem Monroe. Era creme, esse, o vestido!... Ela olha-o: cabelo curto, castanho,…, batom… não, não tinha batom! Mas tinha camisa branca! De linho. Acabaram de se apaixonar!
Mas e agora?! Menina de cidade com rapaz de campo? Filha de boa família com herdeiro… de um pedaço de terreno? Não era boa combinação. Nenhum deles se importou. Principalmente Alberto. Namoriscam durantes dias. Noivaram em semanas. Vivem aquele amor que só se vê nos filmes. E não, não era platónico! Era tudo menos isso. Foi vivido ao extremo. Cada beijo beijado ao segundo. Cada abraço abraçado ao minuto. Cada olhar olhado à hora. Era amor. Que há mais a dizer?

Depois de votos trocados, numa igreja quase vazia, fizeram-se à estrada. No carro, sim, o mesmo. Rumaram sem rumo até encontrarem o que buscavam. Uma casita branca, rasteira e de vizinhança pacífica (nem a havia!). Servia! Não era palácio, nem muito menos palheiro, mas era uma casa. De alicerces pesados, afundados na terra. Acomodaram-se e começaram a viver a dois. Mas logo nasceu o primeiro... Nasceu o segundo… Não nasceu um terceiro. Por entre birras e choros, amavam-se. E fizeram crescer os filhos. Saudáveis. Educados. Adultos.

Os filhos saem de casa. Vão viver vidas, paixões. E ficam os dois velhos, arcaicos, sozinhos em casa. Numa casa enorme outra vez. Cuidam-se um do outro e continuam a amar-se. Nunca deixaram de o fazer. Até ao dia em que se deitaram juntos. Adormeceram mas não acordam.

Escuridão. Vermelho. Laranja. Amarelo. Clarão! Alberto levanta as pálpebras e vislumbra as folhas verdes tremelicantes. Vê um melro-preto a voar-lhe por cima. Vê o céu azul. Acorda de um sono longo. Acorda de um sonho espetacular! Fora só um sonho. Levanta-se e espreguiça-se.
Volta o caminho para casa e, qual é o seu espanto, vê ao longe um carro atolado na lama. Encontra uma rapariguita de cabelo curto, louro…
Que nem filme! Ou melhor: Que nem sonho!

Afonso dos Santos
Escola da APEL

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